Como Francisco preparou o caminho para o seu sucessor, Leão XIV

PAPA LEÃO XIV e Papa Francisco (Reprodução/ Vatican News)

PAPA LEÃO XIV e Papa Francisco (Reprodução/ Vatican News)

Jornalistas traçam perfil eletrizante nos bastidores da escolha do novo Papa

Jorge Bergoglio encerra a missa campal na praia do centenário Leme e para surpresa da segurança o carro aberto entra na movimentada rua Gustavo Sampaio e para em frente à mais antiga padaria do bairro. Sorri e acena para as pessoas, perplexas e orgulhosas por estarem diante do Papa Francisco, que veio ao Brasil em julho de 2013 para a Jornada Mundial da Juventude. Esta improvisação e simplicidade foram marcas registradas do seu pontificado (março de 2013 a abril de 2025). O livro “The Election of Pope Leo XIV: The Last Surprise of Pope Francis” (“A Eleição do Papa Leão XIV: A Última Surpresa do Papa Francisco”), do casal de jornalistas Gerard O’Connell e Elizabetta Piqué, tem um ritmo eletrizante. Está disponível na rede em inglês.

Bergoglio, que sucede o conservador Bento XVI, o Cardeal Joseph Ratzinger (1927-2022), adversário da Teologia da Libertação, conseguiu em 12 anos nomear 80% dos cardeais e a reformular com a sabedoria de um jesuíta latino-americano _ o primeiro a ser Papa _ a complexa estrutura do Vaticano. Os autores são amigos dele _ ele é irlandês e correspondente da revista “America”, publicada pelos jesuítas nos EUA, enquanto ela é correspondente há 25 anos do argentino La Nación.

Trata-se de um relato jornalístico em que o casal não esconde a sua amizade com Berglogio e percebe o fim dele: “Seu rosto está muito diferente daquele que o mundo viu na noite de 13 de março de 2013, quando apareceu com um simples “Buonasera”! Sua pele está pálida. Há um hematoma próximo do olho esquerdo em razão de um derrame que causou a sua morte”. Elizabetta lembra que Berglogio celebrou seu casamento com Gerry. “Ele usou seu anel de arcebispo de prata – aquele que sempre preferiu ao anel de pescador. Assim como viveu, ele repousa”.

Foi a sua última aparição na Praça São Pedro, na sacada do Palácio Apostólico. Teve dificuldades em falar e precisou ler “Feliz Páscoa”. Bergoglio era um grande comunicador e os médicos recomendaram dois meses de repouso, o que foi ignorado pelo papa.

Com a rígida formação de 12 anos de um jesuíta, Bergoglio, filho de italianos, teve uma vida comum: era um ótimo dançarino de tango, teve namoradas e trabalhou como químico e porteiro de uma casa de danças. Resolveu ser padre apenas aos 23 anos e fez uma carreira meteórica, chegando a chefiar a Companhia de Jesus na Argentina e no Uruguai. Foi acusado de conivência com uma das mais sangrentas ditaduras militares da América Latina, mas o fato é que o Cardeal sempre socorreu os perseguidos pelo regime militar argentino.

Ao chegar ao pontificado, ele começa a mexer em toda a burocracia do Vaticano, melhorando a comunicação e deu uma guinada na sua estratégia de evangelização, como ressaltam os autores: ele buscou levar a sua mensagem a países da América Latina, Ásia e África, deixando em segundo plano a Europa, continente que ano a ano reduz o seu rebanho, formado por 1,4 bilhão de católicos em todo o mundo.

É no Peru que ele descobre o americano Robert Prevost e logo o promove ao estratégico cargo de Dicastério dos Bispos. É como se aquele homem, que no passado fora autoritário, a ponto de cumprir um verdadeiro exílio em Córdoba por dois anos, por determinação dos seus pares. Nos 700 km que separam Buenos Aires de Córdoba, Bergoglio, um cardeal culto e avesso a assistir televisão, faz uma profunda reflexão de sua vida, dos seus atos e sobretudo do processo de evangelização. Retoma à capital remoçado e com uma visão de um grande estrategista.

Nos seus 12 anos como pontífice, estimulou os 7 mil missionários, entre padres, freiras e leigos, que abandonam suas vidas para se dedicarem à evangelização em escolas, hospitais e centros comunitários. Alguns deles foram assassinados por regimes ditatoriais. Francisco, relatam os autores, sempre optou por lideranças, como Prevost, que conviviam com o povo, realidades muito difíceis e um crítico do poder esmagador do Vaticano. Sua eleição, evidentemente, não tem qualquer relação com o fato de ser americano, como apregoa, de forma arrogante, o presidente Donald Trump. Prevost tinha muito orgulho do seu trabalho pastoral no Peru e é hoje um ator relevante na busca pela paz.

Francisco defende a Igreja dos Pobres, mas fez restrições ao marxismo na Teologia da Libertação, da mesma forma que apenas homens podem ser padres, como os apóstolos. Bergoglio e Prevost aprofundaram a amizade em encontros internacionais e houve muita interação com o então padre americano, peruano por adoção.

Os autores reforçam a sua intimidade com Bergloglio, diferentemente do clássico “O louco de Deus no fim do mundo”, de Javier Cercas, Editora Record. O premiado escritor espanhol, um declarado ateu, é convidado pelo Vaticano a acompanhar uma das últimas viagens de Francisco, com destino à Mongólia. O autor mantém conversas detalhadas com os principais assessores de Francisco e se impressiona com os missionários, a sua fé, a crença em um mundo melhor e, sobretudo, com o bom humor, como pregava Francisco.

A eleição de um papa é um momento pautado pelo sagrado, dentro da Capela Cistina. Prevost não era o predileto, mesmo com todo o esforço anterior de Bergoglio, que apostava na continuidade do seu pontificado, que incluía uma aproximação com a China, onde há muitos católicos, mas bispos e cardeais só podem ser nomeados em comum acordo entre o Governo, comandado pelo Partido Comunista, e o Vaticano.

Um dos episódios mais simbólicos relatados pelos autores envolve a detecção de um sinal de celular ativo durante o conclave. Em um ambiente rigorosamente protegido contra qualquer comunicação externa, a presença de um aparelho ligado rompe, ainda que brevemente, a ideia de isolamento absoluto. O episódio, mantido sem identificação do responsável, expôs uma tensão silenciosa: mesmo nos espaços mais controlados, há fissuras. E nessas fissuras, aparece o humano — com suas inseguranças, suas urgências e seus limites. Mas o bastidor mais importante não está em um evento isolado, e sim no processo anterior à votação.

Antes mesmo de entrarem em clausura, os cardeais participam de reuniões preparatórias em que discutem os desafios da Igreja e delineiam, ainda que de forma informal, o perfil desejado para o próximo pontífice. É nesse espaço, longe dos olhos do público, que os consensos começam a se formar.
Quando o conclave se inicia, portanto, o campo já está parcialmente desenhado. Não se trata de uma escolha completamente aberta, mas de uma decisão que emerge de dias — e, em certa medida, de anos — de conversas, percepções e alinhamentos.
Nesse contexto, chama atenção o fato de que os nomes inicialmente mais fortes não tenham avançado. Perfis mais marcados, associados a correntes específicas, encontraram resistência. Havia, entre os cardeais, uma preocupação clara em evitar uma liderança que aprofundasse divisões internas. A Igreja buscava, naquele momento, não apenas um líder, mas um ponto de equilíbrio. É nesse cenário que surge Robert Prevost, o primeiro papa americano e oriundo da Ordem de Santo Agostinho. Sem rejeições significativas, ele se torna uma alternativa viável.

Sua força não está na imposição, mas na possibilidade. Ele representa uma escolha que não rompe, mas também não retrocede — uma continuidade capaz de dialogar com diferentes visões dentro da Igreja Católica. Francisco terminava os seus discursos, sempre com doses de improvisação, com um “Rezem por mim”. Ele se declarava um pecador e sempre foi contrário à infabilidade papal. O livro de Guerry e Elizabetta tem o mérito de ser um relato jornalístico, acessível ao grande público. É uma espécie de diário.

Os jornalistas foram precisos na marca de Leão XIV, que seguindo Francisco, faz agora a sua primeira viagem internacional, com destino à Argélia, seguindo depois para Camarões, Angola e Guiné Equatorial. Pela primeira vez, o número de católicos na África ultrapassou o da Europa, o que reforça uma Igreja missionária, em países periféricos, longe do Velho Mundo.

Sepultado, Bergoglio  transformou a Igreja para que ele pudesse continuar a sua obra. Ao se ordenar padre, perto dos 33 anos, ele se trancou por oito dias para meditar.

Redige um texto que décadas depois demonstraria toda a sua humanidade e simplicidade:

“Creio na minha dor, infértil pelo egoísmo, na qual me refugio/Creio na mesquinhez da minha alma que procura engolir sem dar … sem dar.”

É um verdadeiro manifesto de um católico.

*Colaborou Lourdes Fernandes

Publicado em: https://exame.com/colunistas/coriolano-gatto/como-francisco-preparou-o-caminho-para-o-seu-sucessor-leao-xiv/