Os riscos e os dilemas de um empreendedor

Os riscos e os dilemas de um empreendedor

O meu avô paterno, Coriolano Garcia Gatto, morreu em 1932, vítima de tifo, aos 42 anos, em Itaperuna, no então próspero norte do estado do Rio. Agentes públicos roubaram o fundo de comércio – tecidos refinados do seu armarinho. Minha avó Leonor Teixeira Gatto, semianalfabeta, mãe de sete crianças, ficou muito pobre. Ela era vizinha do talentoso menino Ernane Galvêas, de uma família paupérrima, o qual ocuparia cargos relevantes no setor público e na área privada a partir dos anos 1950.

Meu pai Elson, aos seis anos, ajudava à mãe doceira e, aos 15, virou arrimo de família, morando em uma modesta pensão, na Glória, próxima da Lapa, no Rio, dando duro como contínuo e se dedicando aos estudos. Aos 30 anos, com a formação e a experiência de químico industrial graduado pela antiga Universidade do Brasil (atual UFRJ) e com largos conhecimentos de engenharia e de física, cria com outros sócios uma empresa de construção pesada, no Espírito Santo, onde edificou as principais rodovias ao sul do Estado, incluindo mais de 100km da atual BR-101. Foi um dos desbravadores capixabas, em 1955.

Eu conheço e tenho relacionamento com empresários que têm uma trajetória irreprochável, mas, por vezes, são pegos no contrapé, seja por escolhas ousadas que não deram a taxa adequada de retorno do investimento – a famosa TIR -, seja pelo efeito de políticas públicas nocivas aos negócios.

O aumento do imposto de importação sobre bens de capital e de informática, por exemplo, é algo esdrúxulo e põe o Brasil na contramão da integração ao comércio internacional.

Eu chamo a isso de uma de dedetização do setor privado, enquanto a rataria de sempre continua a sugar o dinheiro do contribuinte, o que inclui empresas ineficientes. Nem vou falar dos juros estratosféricos.

Há empresários que guardam semelhanças com o protagonista do livro “O Jogador”, de Dostoiévski, o Aleksei Ivánovith, que vai até o limite do risco. Erram e acertam para alcançarem a vitória. São incensados por parte da mídia no sucesso e têm a sua reputação questionada nos momentos de dificuldades. Vão de herói a malfeitor da noite para o dia.

O empresário vive em um país que tem uma carga tributária pornográfica, como diria o saudoso Roberto Campos, o grande ex-ministro e parlamentar, o Bob Fields – eu gosto de incorporar esse apelido maldoso. Campos foi um personagem ímpar a quem tive a honra de ter participado da festa dos seus 80 anos junto com a minha Lourdinha, a convite de José Luiz Bulhões Pedreira, em abril de 1997, o maior dos maiores advogados com quem convivi ao longo da minha carreira desde 1986. JLBP ofereceu de presente a festa ao amigo de longa data. Foi uma epifania no Copacabana Palace, com grandes personagens da República – de Walther Moreira Salles a Roberto Marinho, passando por uns poucos jornalistas, como Elio Gaspari, Luís Nassif, Luiz Cesar Faro e este signatário.

O empresário, por definição, é um mordedor e sinônimo de alguém que acredita no slogan “Mais Brasil e menos Brasília”. Nem preciso falar de nomes. Em alguns momentos, age como um predador para construir a riqueza.

São empreendedores que fazem jus à destruição criativa, conceito introduzido por Joseph Schumpeter em 1942, um processo no qual inovações disruptivas criam mercados e produtos, tornando obsoletas as indústrias, práticas e tecnologias antigas.
É preciso ter coragem para tomar riscos no Brasil, como o meu pai, Elson Teixeira Gatto, no Espírito Santo. Artistas, intelectuais, esportistas e políticos costumam ser homenageados depois de sua morte. É justo. No Brasil, o empresário, com raras exceções, é esquecido. É como se o brasileiro tivesse ódio ao lucro e ao sucesso de quem gera empregos formais e traz prosperidade. Tristes trópicos, diria o antropólogo Claude Lévi-Strauss.